Um Deus incapaz de sentir?

Observe como os 39 Artigos começam afirmando que nós cremos em um Deus único que é “vivo e verdadeiro, eterno, sem corpo, partes ou paixões”.

Deus, que é Espírito, não tem corpo ou partes. Quando a Bíblia fala sobre mãos, pés, braços, bocas e olhos de Deus, estamos diante de antropomorfismos. O antropomorfismo bíblico é uma figura de linguagem em que atributos humanos, para comunicar as ações divinas na História de maneira mais compreensível para os seres humanos. Isso não deve ser entendido de forma literal, pois Deus é espírito e imaterial (João 4:24). Certamente, essas expressões visam revelar aspectos de Sua natureza e Sua relação com o mundo. Por exemplo, ao falar das “mãos de Deus”, a Bíblia quer enfatizar Seu poder criador e sustentador, e quando menciona Seus “olhos”, fala da vigilância constante sobre a criação (Salmo 33:18). O uso desses termos, portanto, é uma forma simbólica de tornar acessível a compreensão da grandeza divina. Apenas alguns grupos sectários não conseguem compreender esse conceito teológico e por isso acabam ensinando que Deus é um ser corporal.

No entanto, não são poucos os que encontram dificuldades com outro conceito teológico: o da impassividade divina. Além de ser sem corpo ou partes, os 39 Artigos de Religião, bem como toda a Tradição Cristã, afirma que Ele é “sem paixões”. O que isso significa? Está sendo dito que Deus é incapaz de sentimentos?

A doutrina cristã da impassibilidade (impassibilis) divina não implica que Deus seja não-pessoal, insensível ou incapaz de amor, misericórdia e outras disposições divinas. Pelo contrário, historicamente, a doutrina buscou proteger a perfeição e a imutabilidade de Deus.

O Significado Teológico de “Paixões” (Pathē)

No contexto teológico clássico (Patrística, Escolástica e a Teologia Reformada Clássica), a palavra “paixões” (pathē em grego) carregava uma conotação filosófica e teológica diferente do que a palavra “paixão” ou “sentimento” significa na linguagem moderna. “Paixões” eram entendidas como afecções ou perturbações da alma que envolvem passividade, mudança, sofrimento, e a ser afetado por influências externas ou forças internas desordenadas. Elas implicavam uma mudança de um estado para outro (por exemplo, de raiva para calma, de alegria para tristeza) e, crucialmente, uma vulnerabilidade ou dependência do mundo externo ou das circunstâncias.

Em outras palavras, sentir paixão equivale, neste contexto, a mudança. Nós mudamos de acordo com as situações. Posso acordar deprimido e ficar feliz durante o dia, ou o oposto. Isso gera uma questão interessante, afinal, a Bíblia afirma que Deus não muda. O mundo muda, as pessoas mudam, as circunstâncias mudam, mas Deus permanece sempre o mesmo. Em Malaquias 3:6, está escrito: “Eu, o Senhor, não mudo”. Em Tiago 1:17, onde é dito que “em Deus não há variação nem sombra de mudança”.

Dessa forma, quando a Fé Crista afirma a impassibilidade divina, trata-se uma negação de que Deus possa ser “paciente” de uma ação (sujeito a mudanças ou sofrimento causados externamente) da mesma forma que as criaturas.

Deus ama?

Por outro lado, não é uma negação de que Deus tenha afeições (emoções) no sentido de atributos eternos e imutáveis como amor, misericórdia, ira e alegria, mas nega que essas afeições sejam como as paixões humanas – erráticas, incontroláveis, dependentes ou que causem sofrimento. Não é que Deus não tenha emoções ou sentimos, mas que tais atributos n’Ele são perfeitos e não condicionados e imperfeitos como existem e nós.

Ademais, a Fé Cristã certamente se baseia nas Escrituras para sustentar que, de fato, Deus é um Ser pessoal que ama, se comunica, se doa. Há várias expressões bíblicas que comprovam estes fatos. Deus é Amor: O amor de Deus (agapē) é um atributo essencial e eterno de Sua natureza (1 João 4:8), e não uma paixão que surge ou desaparece em resposta às criaturas. Ele ama porque Ele é amor. A Sua misericórdia e ira são também perfeitas e expressões de Sua santidade e justiça imutáveis.

E por mais que pudéssemos citar outras provas bíblicas, basta-nos a maior de todas no testemunho da Encarnação. O coração da teologia cristã é a Encarnação de Jesus Cristo. O Apóstolo João expressamente diz: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna.” (S. João 3:16). Não há afirmação mais bela e perfeita em toda a literatura.

Recordemos ainda que, na Pessoa de Cristo, Deus (o Logos Divino, a Segunda Pessoa da Trindade) assumiu uma natureza humana com todas as suas faculdades, incluindo a capacidade de sofrer (passibility) e ter paixões (no sentido humano). Teologicamente, Cristo sofreu e morreu em Sua natureza humana, mas a Sua natureza divina permaneceu impassível e imutável. Ainda assim, Deus sofreu, pois a Pessoa de Cristo Sofreu: essa Pessoa, diz a Bíblia, é Deus e Homem. Sabemos, portanto, que Deus é verdadeiramente solidário e compreensivo com o sofrimento humano, sem que Sua divindade perca a Sua perfeição. Turrentin, importante teólogo reformado, pergunta de modo profundamente pastoral: “Quem, senão Deus, poderia suportar o peso insuportável (abastakton) da ira e não ser esmagado por ela?” Sim! Deus sente e ama, de modo verdadeiro e perfeito! Amém!

Rev. Marcelo Lemos

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