A Suficiência das Escrituras

Os 39 Artigos de Religião, que adotamos em nossos documentos de fé, são um valioso marco na História da Reforma Protestante. Sua primeira versão continha 42 artigos e foi composta em 1553. Após algumas revisões, chegou-se aos atuais 39 Artigos de Religião, publicados pela primeira vez no ano de 1571. Eles são um testemunho e a expressão fiel da fé evangélica da Igreja da Inglaterra dos dias da Reforma. Os Artigos começam estabelecendo a fé católica da Igreja, especialmente ao reafirmar a fé cristã na Santíssima Trindade, na Divindade de Nosso Senhor, Sua Ressurreição e nos Credos Históricos (citando, especificamente, os Os Três Credos, Artigo VIII).

Na sequência, os Artigos passam a estabelecer a posição da Igreja da Inglaterra com relação às grandes controvérsias do século XVI, ou seja, temas que provocaram, no campo teológico, a ruptura de grande parte da Igreja Ocidental com a Sé Romana. Neste ponto, os Artigos revelam a natureza claramente reformada de sua teologia, abordando questões como Purgatório, Sacramentos, Eclesiologia, Boas Obras e assim por diante. Por isso a Re.Novo, que adota esse símbolo de fé, alegremente se define como uma Igreja Reformada.

Um dos pontos abordados pelos 39 Artigos da Religião e que muito bem reflete a natureza reformada deles diz respeito a Suficiência das Escrituras. O Artigo VI afirma: “As Sagradas Escrituras contêm todas as coisas necessárias para a salvação: de modo que o que não é lido nelas, nem pode ser provado por elas, não deve ser exigido de ninguém como artigo de fé, nem considerado necessário para a salvação.” Vamos olhar um pouco mais de perto essas afirmações:

As Escrituras contêm todas as coisas necessárias para a salvação.

Não é dito que a Bíblia contem todas as coisas, nem que contenha todas as coisas necessárias sobre todo e qualquer assunto. Mas, no que diz respeito ao que é necessário para a salvação do gênero humano, tudo que precisamos está revelado nas Escrituras. Todo homem precisa fazer a seguinte pergunta: Como posso ser salvo? E todo o necessário estará revelado na Palavra escrita de Deus: arrependimento e fé no Cristo. Nas Escrituras, esse homem descobrirá, se iluminado pelo Espírito Santo, que seu primeiro passo será reconhecer que todos pecaram e carecem da glória de Deus (Romanos 3:23) e que o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus (Romanos 6:23). Em seguida, é necessário crer no sacrifício de Cristo na cruz, que pagou pelos nossos pecados (João 3:16; 1 Pedro 2:24), e confessar com a boca que Jesus é o Senhor, crendo em seu coração que Deus o ressuscitou dos mortos (Romanos 10:9-10). Tal homem deverá receber o Sacramento do Batismo, se ainda não batizado, e participar da Ceia do Senhor. Assim, tal homem é justificado pela fé, sem as obras da lei (Efésios 2:8-9; Romanos 5:1). Ele também prenderá que somos chamados a viver em obediência a Cristo, sendo transformados pela renovação da mente (Romanos 12:2) e a praticar boas obras, que são frutos da nossa conversão (Efésios 2:10).

Nada mais é necessário para a salvação.

O que não pode ser provado pelas Escrituras não pode ser considerado necessário para a salvação

De novo, olhemos para o que o Artigo não diz. Não diz, por exemplo, que a Igreja não pode estabelecer regras que não estejam claramente nas Escrituras. Na verdade, a Igreja pode fazer isso. É costume em nossa Igreja, e em muitas outras igrejas históricas, que na celebração da Eucaristia certos gestos, vestes e ritos sejam seguidos. Isso é legítimo. Cada comunidade de fé, além do Domingo, pode estabelecer outros dias para a adoração pública. Historicamente, a Igreja tem estabelecido certos dias de festas, como Pentecostes, Advento, Natal ou, como é bastante popular entre os evangélicos, Congressos, Aniversário da Igreja, Aniversário da Reforma e assim por diante.

O que os 39 Artigos dizem é que se algo não está provado pelas Escrituras, não pode ser considerado, nem exigido, como necessário para a salvação. Há cristãos e comunidades cristãs, por exemplo, que não assistem televisão ou cinema, e isso parece lhes fazer enorme bem. É legítimo. Muitos de nós tem por costume dedicar 40 Dia no ano ao jejum, durante a Quaresma. Isso é muito bom. Mas, teríamos o direito de condenar aqueles que não adotam esse ou aquele costume? Tal juízo é proibido, pois somente as Escrituras podem dizem o que é necessário para a salvação das almas. Contudo, em sua economia, a Igreja pode e deve buscar caminhos que ajudem e apoiem os cristãos no caminho da santidade, da oração e das demais disciplinas espirituais, desde que não incorra no pecado do moralismo ou do legalismo religioso.

Essa não é um discussão meramente teórica. Há neste Artigo uma pérola de grande valor. Afinal, ao afirmar que nada que não esteja contido nas Escrituras pode ser imposto como exigência de fé, os Artigos protegem a Igreja contra duas imposições:

  1. Tradições que Contradigam a Bíblia: O princípio rejeita o elevar de tradições ou ensinamentos humanos ao nível de mandamentos divinos, especialmente quando estes não têm respaldo bíblico ou, pior, o contradizem. Jesus criticou essa prática ao dizer: “Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição que vós transmitistes; e fazeis muitas coisas semelhantes a estas” (Marcos 7:13 – Almeida Corrigida Fiel).
  2. Regras Humanas Opressivas: A fé é libertada de um excesso de regras e regulamentos feitos por homens que tentam “regular a vida das pessoas além do prescrito por Deus”. A suficiência das Escrituras nos lembra que “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Timóteo 3:16-17 – Almeida Revista e Atualizada).

Desse modo, o Artigo VI assegura que a autoridade final para a salvação e a doutrina reside na Palavra revelada de Deus, fornecendo um baluarte contra inovações doutrinárias e garantindo que o jugo de Cristo seja leve (Mateus 11:30).

Rev. Marcelo Lemos

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