Afinal, precisamos de Credos?

Se os cristãos possuem a Bíblia Sagrada como regra de fé, qual a necessidade dos Credos? Os 39 Artigos de Religião dedicam todo o Artigo VIII a estabelecer o valor desses instrumentos, em específico, o que chama de “Os Três Credos”:

“Os três Credos — o Credo Niceno, o Credo de Atanásio e o que é comumente chamado de Credo dos Apóstolos — devem ser plenamente recebidos e cridos, pois podem ser provados pelas mais certas garantias das Sagradas Escrituras.”(Artigo VIII).

Os próprios 39 Artigos são um tipo de Credo que se enquadra melhor no conceito de Confissão de Fé. Confissões de fé são declarações doutrinárias mais extensas e detalhadas, para estabelecer a posição doutrinária de uma Igreja, muitas vezes abordando questões controversas da época em comparação com outras vertentes do cristianismo.

Mas, por que esses instrumentos são importantes?

O valor desses documentos reside precisamente em sua natureza como normas reguladas (norma normata). Eles não buscam substituir ou se igualar à autoridade das Escrituras, mas sim traduzir e sistematizar o seu ensino. Credos e confissões são declarações humanas que possuem autoridade derivada; são válidos e úteis na medida em que refletem fielmente o que a Bíblia ensina. Em outras palavras, eles são a resposta articulada e refletida da Igreja à Revelação de Deus.

Outra das funções mais vitais desses documentos é a proteção da ortodoxia. Ao longo da história, a Igreja se viu forçada a definir sua fé para combater heresias e falsos ensinamentos. O Credo Niceno, por exemplo, não foi escrito para inventar a doutrina da Trindade, mas para defendê-la e esclarecer o ensino bíblico sobre a divindade de Cristo contra desvios como o Arianismo. As Confissões de Fé, mais extensas, servem para delimitar o que uma comunidade cristã entende como o limite aceitável da interpretação bíblica.

Consideremos ainda que Credos e Confissões são ferramentas cruciais para a unidade e o ensino. Eles fornecem um resumo conciso e organizado das doutrinas fundamentais (a Trindade, a Pessoa de Cristo, a Salvação, etc.), essenciais para a catequese e o discipulado. Ao adotar uma confissão, uma denominação estabelece sua identidade doutrinária, permitindo que seus membros e o mundo saibam exatamente no que ela crê. Essa clareza promove a unidade interna e facilita o testemunho público da fé, conforme ordenado nas Escrituras.

Podemos mencionar também o vínculo com a história da Igreja. Tais documentos nos conectam à “nuvem de testemunhas” do passado, lembrando-nos que não somos a primeira geração a lutar para compreender e aplicar a Palavra de Deus. Recitar um credo antigo é participar de uma confissão que atravessa séculos, oferecendo uma perspectiva de humildade e continuidade histórica. Portanto, o valor dos credos e confissões não reside em sua infalibilidade, mas em sua utilidade como balizadores, guias e guardiões que ajudam a Igreja a crer, confessar e viver a verdade revelada na Bíblia com fidelidade e clareza.

Por fim, devemos ter em mente que a Reforma estabeleceu o princípio do livre exame das Escrituras, mas isso não deve ser interpretado como livre interpretação. Todos são livres para, como os Bereanos mencionados no livro dos Atos dos Apóstolos, examinarem os ensinos a luz da Palavra de Deus, no entanto, uma interpretação livre é mero abuso. Para começar, toda interpretação se baseia, no mínimo, nas regras mais elementares da gramática, do contexto, da intenção do autor e assim por diante. Ninguém pode simplesmente inventar suas próprias regras de interpretação. Além disso, tanto a Bíblia quanto a Fé Cristã fazem parte do depósito da fé da Igreja, e qualquer um deveria temer e tremer ousar se aproximar delas ignorando o testemunho do Espírito ao longo dos séculos.

Rev. Marcelo Lemos

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